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Um
som diferente do habitual está dando uma nova cara ao Centro de Maceió,
Alagoas. Alfaias, djembês, tambores, caixas, atabaques e demais instrumentos
percussivos, antes vistos só de rabo de olho, estão agora ganhando status de
renovação pela própria comunidade a partir do trabalho de um só homem.
Wilson Santos, 31 completos somente em setembro, é músico, artesão e
idealizador de um grupo, melhor, de uma orquestra onde a percussão é o
centro das atenções. Em sua trajetória, o grupo conta com participação no I
Festival BNB da Música Instrumental e Feira da Música 2008 – Festival da
Diversidade Musical Brasileira / VII Encontro INternacional de Música
Independente e leva seu som para o primeiro CD do grupo, Bantos e Caetés,
que está sendo gravado no studio do Sesc Centro, em Maceió, onde deve ser
lançado ainda este ano.
Na concepção de
sua pesquisa, iniciada no final dos anos 80, a mistura dos ritmos
afro-brasileiros, voltados sobretudo para os cultos religiosos, associa-se
perfeitamente com as manifestações populares do Nordeste, feita de
maracatus, bois e xotes. É a música instrumental primitiva aliada à
contemporaneidade. "A idéia do nosso trabalho surgiu a partir da própria
característica da cidade, que têm muitos percussionistas, mas eles não
tinham nenhuma escola que ensinasse, que tivesse essa troca de informações.
Eram
todos percussionistas natos. Pra você ter uma noção, aqui no Estado nós
temos uns 28 folguedos e cada qual com um ritmo diferente", explicou Wilson.
A
Orquestra de Tambores de Alagoas surgiu, porém, quase por acaso. "Como a
gente não tinha um lugar certo, as pessoas tocavam no terreiro, na capoeira,
ou seja, dentro do seu próprio espaço folclórico.
Só
em 2004, eu tive então a idéia de montar o grupo pra, de uma forma
independente, trazer esse músico pra tocar, se expressar mesmo. Eu
aproveitei e passei a reunir o pessoal no quintal de casa mesmo, com quatro
percussionistas só".
Mas os
vizinhos... "começaram a reclamar, né?", ri-se. "Até hoje quando a gente vai
com um tambor pela rua, alguns vêm e: - Lá vem o tambozeiro, o macumbeiro...
Mas
a gente, ainda bem, está conseguindo mudar essa história".
Na
bagagem, Wilson Santos carrega sobretudo a sabedoria de sua religião para
passar os ensinamentos à nova geração de percussionistas. "Eu sou ogã de
candomblé, então eu já venho naturalmente com esses ritmos, com essa
mistura.
A
minha linha é afro, né? Eu comecei, pra proveito próprio, a pesquisar a
relação do ritmo com a natureza, isso por volta de 1989. A partir de 2003,
2004, a gente misturou o afro com o folclore. O Quebra-Louça, que é um xangô
voltado para o elemento fogo, nós misturamos com o maracatu e vimos que a
célula, ela é muito parecida. A maioria, aliás, desses ritmos tem toda uma
relação", afirmou.
A intenção
de Wilson com o grupo é simples: pegar o ritmo como base e proporcionar uma
releitura nas apresentações. "Existe uma árvore africana chamada Yroco que a
gente costuma associá-la sempre com o nosso trabalho na orquestra.
Nós
somos tal qual a raiz, cravada totalmente no chão (devido ao som primitivo
dele extraído), e as folhas e o caule totalmente antenados com o que
acontece no mundo".
Mas se por um
lado o músico analisa a diferença positiva alcançada desde a criação da
orquestra, por outro constata a falta de apoio aos
grupos que têm na percussão seu ponto de partida.
"Aqui no nosso Estado, mas eu acho que é na maioria do Brasil, as pessoas
têm um ranço fortíssimo.
Em
1912, por exemplo, ocorreu um fato muito louco: existia um movimento de
terreiros grande, praticamente tinha um terreiro em cada esquina de Alagoas.
Eram maracatus, afoxés, tudo nessa história de xangôs, e o prefeito da
época, um cara chamado Euclides Malta, conseguiu dizimar eles todos. Só
algum tempo depois que conseguiram retirar a base do poder dele e voltar ao
normal. Então esse caso é só pra você notar como as coisas são complicadas".
Percalços
de lado, o grupo é só alegria. "As coisas que vêm acontecendo pra nós é tudo
uma surpresa porque utilizamos o tambor como forma de expressão.
No
último réveillon, a gente tocou pra umas cinco mil pessoas! Então o que eu
posso concluir disso? Que nós temos um papel na sociedade. Temos um CD demo
pra divulgar nosso trabalho em festivais e eventos como esse, mas o que eu
quero é que a Orquestra de Tambores de Alagoas represente, sobretudo, a
comunidade periférica, antes mesmo de representar o Estado de Alagoas, os
bairros de Ponta Grossa, Trapiche da Barra, etc. A gente sabe que é
complicado. Nós não somos nem melhores nem piores, mas somos uma
alternativa".
Multiplicando saberes
Quando não está se apresentando, Wilson Santos tem uma segunda casa durante
a semana: o Centro de Belas Artes de Alagoas (Cenarte). Lá, o músico
ministra não só aulas de percussão como também ensina aos alunos a arte da
confecção de instrumentos, alguns até então inexistentes. "São aulas
ministradas pra comunidades do Centro, Margem da Lagoa, Vergel do Lago...
São pessoas da camada pobre e nós viemos com esse projeto, com essa idéia, e
ganhamos o total apoio da Secretaria de Cultura de Alagoas; no ano passado,
também ganhamos o Edital do BNB", explicou.
E como é isso na prática? "Hoje a gente tem feito um trabalho de
multiplicação.
Existe aqui na nossa cidade um centro de ressocialização de menores
infratores, o Instituto Humberto Mendes, onde eles já estão até liberados,
mas a família não quer de volta. Então o grupo tem prestado um trabalho com
eles. Nós não temos grana pra comprar instrumentos, então ganhamos R$ 10 mil
de material e os confeccionamos. Chamamos o jovem, então, pra esse diálogo
fazendo dele um elemento transformador porque, a partir do momento em que
ele sabe do seu passado, vai ter condições de compreender daqui por diante".
Os instrumentos aprendidos são variados e acabam todos fazendo parte da
orquestra. De origem africana, saem os djembês e até o engome, "que
utilizado nos cultos afro de Alagoas, já estava meio extinto, sendo feito
com tronco de coqueiro.
O que a gente mudou da sua origem, vamos dizer assim, foi a corda que antes
era de cizal e agora usamos de felpro".
Também são confeccionados zabumbas, pandeiro, alfaia, reco-reco e o tambor
falante. Quando usados nos shows, o repertório dá vazão a essa mistura que
ora mergulha no universo afro, ora nas manifestações oriundas do Nordeste.
"A maioria das nossas músicas são de domínio público. Existe o refrão de um
xangô alagoano que nós colocamos com baião, atabaque com zabumba, e o pífano
no lugar da voz", adiantou.
Atualmente, a Orquestra de Tambores de Alagoas é formada por 22 componentes;
para Fortaleza, vêm 11 permanecendo aqui até a Feira da Música 2006, que
ocorre de 9 a 12 de agosto, sendo uma das atrações ao lado dos conterrâneos
da banda Cumbuca. No BNB Clube sede praia, Wilson Santos irá ministrar na
segunda-feira (31), às 19h, uma oficina de percussão e noções para a
confecção/afinação de alguns instrumentos. O público-alvo, no entanto, serão
adolescentes do projeto social Cidadão de Futuro.
(Teresa Monteiro) |
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